Domingo, 14 de Junho de 2009

POESIA HOJE | agregador da poesia contemporânea brasileira

POESIA HOJE | agregador da poesia contemporânea brasileira

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Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

mãos dadas - drummond

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Sábado, 9 de Maio de 2009

tenho sido menino mais novo a cada dia homem

sei do seu amor e qual sua chávena me aqueço alça
do fastio da nuvem lá fora fizemos brotar a alvorada três
gozado
mais uma vez saudei-o com boa noite
mas era dia
e nada se explicou de que não me esquive
beijo os seus olhos em sinal de afeto e ponta de orgulho
apagar a luz inteira e acender de novo cio

poeta diz não ser
da inutilidade do tempo
para que serve o poema?
poema para Jimmy Charles

poeta diz:
sou não
sou o não
não sou
não sou nada
para que o poeta?
poeta diz não ser
e o poema nasce nada sendo
nada o poeta dizendo ser
o tempo passando e dizendo
(tão inútil)
- poeta, dá um tempo.

enquanto eu pude ser natálias e luizes
de braços dados dando bom dia
apanhando as folhas do chão
brindando até com cafezinho em copo plástico

fico lendo seu tom rubro a voz
embargo meu choro nada
um somatório de coisas que qualquer
quimicozinho poderia fazer
um suspiro um hambúrguer um não
saber as horas
não faz. isso não faz

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

quase maio de abril

tanta coisa no peito de chegar em casa
tirar os sapatos de giz
pendurar a rede lá fora
reunir a família
mó de olhar canteiros de cravos
acompanhar a viola do sol descendo o tom

foi quando Edmundo sorriu
e Gumercinda chorou

Quinta-feira, 5 de Março de 2009

poema-epílogo

-muito prazer, eu sou modelo-manequim-artista-de-tv. você?
-poeta de merda, encantado...
Rogério Batalha

Sábado, 31 de Janeiro de 2009

Ponte Rio-Niterói, segunda-feira de chuva: pessoas ocupam mais espaço que deveriam

onde pudesse a água de
sal da baía
pessoas puseram um viaduto por
onde pessoas
passam dia e noite onde
pudesse o céu pedrento chorando
riscam pessoas em vôos domésticos e reportagens aéreas
onde pudesse caber
uma pessoa andam outras pessoas a
esbarrar se espalhar pelos
bancos do ônibus parado por
tantas pessoas em
tantos carros a quase
colidirem onde pudesse a
realidade das
pessoas existindo sem
saber
o poeta a ser
humano

Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

autobiografia

todos os amigos se importam
e têm algo a dizer
mesmo que não falem nada
as coisas da minha vida
somadas às coisas da sua vida
mais a vida dos outros
é base de muita conversa
papo-furado de botequim
roteiro de filme
mesmo os nomes, usamos
sem pedir licença
tá tudo em família
(por sorte, ninguém aqui me quer mal)
e o dito hoje
passados os anos
que efeito?
eu, que em botequins fui ingrata
fui meretriz, fui fraude, fui ladra
estou hoje sendo lida com gosto pelos bebuns
estou hoje bebendo com gosto sua posição
é a vida
uns vêm, outros vãos
eu, que sempre estive cabisbaixa, enxovalhada
escrevendo minha impotência ante a hipocrisia
escárnio sem pretensão
me dando ao luxo de sorrir
nesse mundo de filha da puta
mas todos, amigos,
sabemos que tem coisa que se fala sem pensar.
sabemos da grande mãe relatividade,
que olha por nós agora e na hora de nossa morte
que olha por nós quando pecamos
quando maldizemos
quando praguejamos
e mentimos
porque todos mentimos
com esse nosso riso sentido e maquiado
porque todos não entendemos o porque
mas nos viramos uns contra os outros
e nos pusemos outros contra os outros
e com isso aprendemos como se dirige o mundo.

Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009

tanta destruição

aquilo que não passa de fora de si
existe no meu dentro
como se fosse por dentro em si
e em meu dentro a alcova que alimento
por amor por si
desde a primavera aborrecida com as chuvas
a esse cinza estanque liquefeito nos pormenores de tudo
imperceptível

ceder ao repouso

só porque não lemos as cores vangoghianas
nem bebemos juntos bukówski às talagadas
porque não conhece o livro de pessoa
nem os contos que eu citei em brasileira e nos bares
porque não sei de vetores nem de balancetes nem de fórmulas
nem arrisco falar de resultados
sem que haja tanta controvérsia
porque uma cor não há sem que surja outra dentro
nem por ser daltônico
nem por isso nos entendemos
nem por isso deixa de ser amor.

Domingo, 16 de Novembro de 2008

samba minha doida
pela janela eu vejo o oposto das suas pulseiras
passa o vento assobiando dele mesmo
assanhando as folhas
samba
que fico a olhar a janela,
a doida sou eu

da série dos silêncios - I

o que dá dentro do peito
é feito contração de parto
e ao ver o filho, no lugar da face
uma voz chama saindo da mãe
de volta ao útero
suga o seio vivo vertido à luz
alimento ao olho virgem
que arde e chora lácteo
extrusão da vida incessante
um pulso outro dando vazão à música
permitindo mais som para dar
sentido aos silêncios

da série dos silêncios - II

ah, a invisibilidade do tempo.
ah, a imprevisibilidade da duração dos cinco minutos.
me são curtos aos versos
e a tantos eternos, impossíveis
seu silêncio não me é surdo
ouço as vozes que não se permitem
nem a mim
aparelhos eletrônicos
a música do silêncio tão vulnerável
o ouvido tão perspicaz do mundo surdo
o silêncio absurdo que não pode haver quieto
só contem a mim mudo
que estabeleço uma relação lógica, química, imensurável

da série dos silêncios - IV

nenhum apego para com a eternidade
apenas o tragar dos traços
o ranger do fígado
o caos enumerado ponta a ponta
e os meus segredos passando de sutiã pela janela

da série dos silêncios - III

dizia das companhias
mas que me vale dizer delas
que me vale senão o véu
enquanto seu nome é pó dentro de mim
senão um filtro que me torne a mesma
que assim aceita
dá-me os quinhentos cruzados
a coca aos domingos
o pão e as maioneses
as placas de aluga-se
os vinte centímetros
a boca aberta de manhã
e o saldo negativo

Segunda-feira, 22 de Setembro de 2008

Súbito um verso
tanto quanto angústias
esse mais doce
salta duma janela indefeso
os prédios maqueiam
mas não escondem a terra
lá em baixo
ao toque da tela de proteção
verte do seio a mãe
lágrimas.
Ela foi estrangulada.

Quinta-feira, 14 de Agosto de 2008

de dentro de mim me fiz
gozo meu e alheio. me fiz
tão grande, era como se estivesse só.
como se tudo aqui por perto fosse
matéria minha, ou a mim impelida.
era escuro e eu luz imensa sangrava
como que só
pudesse perceber-me assim de novo
pudessem permanecer as coisas
onde eu quisesse

Domingo, 27 de Julho de 2008

a respeito do Mergulhão Teatral de inverno 2008 (CAL)



A nós, atores e aspirantes, coube a grata tarefa de traduzir a emoção de ser filho dessa terra ingênua e farta, que acolheu o preto parido no chão e o branco parido no Tejo, que recebe com festa a todos os povos, que recobre firme os olhos abertos das crianças, de onde emana toda a esperança de um planeta. Nosso mapa é um coração verde. Nosso verbo é a verdade. Nosso nome é revolução. Nosso grito de ordem é fé. Nosso lema é repartir para multiplicar.

Segunda-feira, 7 de Julho de 2008

faz frio

eu só queria dar vazão ao ciclo
de tempo em tempo somos fluxo
somos círculo, e de círculo espere-se apenas
circular o movimento e repouso
não compreenda.
se falo hoje de geometria
se falo hoje com a frieza de alguém bem resolvido
diga que estou, que sou
estou acordado, não vê?
estou acordado daqui de cima,
suspenso de mim mesmo a provar que estou.

esqueceu o barbeador e eu
a escova de dentes.
souvenir.

Sexta-feira, 4 de Julho de 2008

o mal da gente é acreditar nas coisas.
estou de volta.

Domingo, 1 de Junho de 2008

ah, que me bastasse o absurdo de estar atada a mim, a pessoa primeira do discurso e da carne, mas não posso ser carne viva, estou condicionada a discurso. prova de fácil frágil flácido seio caio como eles em mãos suas sujas meu corpo fogo (não voltasse minha mente, não voltasse pro discurso do desejo, mas estivesse apenas em seu decurso a desejar). sangue de rasgo escorre sempre onde sou dúvida e me digo fé. pele que me recobre o rosto e em face nova me ofereço outra mesmo me sendo indivisível, mesmo fingindo não saber fingir (quando me aperta a consciência, sei também gemer alto e ir fumar um cigarro olhando pro teto e recobrar o que mais se acentua no que sou). ai de mim, quando às vezes é tarde pra se descobrir onde jamais se estaria, ai de mim, que estou a me repetir, pungente e pueril, desde sempre. ah, que me bastasse um cálice/ dia de vinho tinto, mas charco a cara de vodca, charco as ventas de nuvens, charco os pulmões de éter, charco o útero de metades, charco o travesseiro de culpas, charco os amigos de confissões repugnantes, charco o rosto de maquiagem e saio às ruas como se estivesse viva, e nesse dia de chuva nenhum caminhão desgovernado me salpica a roupa, nenhum mendigo me estupra, nenhum menino abandonado me aborda, ninguém sente fome, nem eu, que já perdi a fome faz tempo, sinto fome.

Quarta-feira, 23 de Abril de 2008

Espasmos
I
eu dei um filho. e como vão me pedir pra eu não falar de mim, falo em primeira pessoa porque nela sou. meu filho não me alivia com seu sorriso diário. meu filho me atende ao telefone ocupado e com pressa. quando o vejo, sou um moleque de cinco anos. quando sei que ele está comendo bem, sou nutricionista. quando sinto a lembrança de meu leite vertendo do centro do peito, lá de onde vêm as lágrimas e os gritos, sou mãe. sinto uma coisa que, por mais que tenha vocabulário para definir, impossível traduzir em “saudade”. eu deito em seu colo, eu brinco de pique com seus amigos, jogo futebol, basquete, solto pipa, falo com seus amigos ao telefone, conto historinhas com flores que fazem cocô e digo poesia. seu nome Giovanni Bruno é homenagem à quatro famílias que se juntaram em duas e se subdividiram depois em mais tantas. um nome de força, jovem e bruno. sou mãe sua e é filho meu, indissolúvel. e lugar no espaço não categoriza amor que sinta.
II
o videotape é visão distorcida de espaço e tempo. futebol é momento e cada um no estádio presente é parte principal do momento jogo. aquilo só acontece ali, uma vez, e cada um vê de seu lado, cada lado tem tantos mil olhares de tantos quantos mil pontos de vista – seja ele figurado como a bipartição dos lados, seja ele o sentido real da coisa, ou seja, um para cada indivíduo.
reprodução perfeita do micro que influencia e muta o macro e vice-versa. e vice-versus. o que ocorre em campo move/ remove a torcida como dois bandos e vice-versus, o que mais claramente reflete a eventualidade da vida. oposições do tipo ganhar/ perder, muito/ pouco não dão conta dos sentimentos aqui presentes.
III
fui incumbida de um poema enquanto os rapazes trazem o jantar. que hei de fazer, se cinco ou seis vezes dissemo-nos Tabacaria? nesse meio-tempo houve uma única verdade que em verdade foi um só momento e que pode ter sido tudo isso sem ser a realidade de nada disso. em verdade, meus pensamentos trouxeram à tona outras verdades. e vou escrever em prosa para provar que sou sublime. em verdade, Fernando Pessoa não ensina mais que a confeitaria como coisa real por dentro. fumo meu cigarro pois não há mais valentia que fumar cigarro. pudera eu fumar cigarro com a mesma verdade que fumava Fernando Pessoa. mas advertida pelo ministério da saúde, que é do governo lula, penso... e ao pensar, sigo uma rota própria. enquanto o destino mo conceder, Fernando Pessoa terá escrito tudo, por isso o mal que há feito à poesia.

Domingo, 13 de Abril de 2008

quinze minutos

meu nome era pra ser um, coisa de homenagear o pai. acabou sendo o nome de minha avó quem nem conheci. coisa do pai homenagear. era bem pequena quando ajudava mãe à catar alfinetes no chão do quarto de costura. o pai quando chegava do trabalho tilintava as chaves do lado de fora e eu sentia seu perfume entrar pela porta da sala. podia esperar chiclete japonês de caixinha, bonecas novas, abraços e beijos, músicas novas e uma longa sessão de dança pelo sofá, ou simplesmente um pai cansado do trabalho indo dormir. quando nasceu o menino o casal se estranhava. e menino e menina se dividiram em dois lados, do pai e da mãe. cada um filho de um como se não fossem dos dois, pois não havia mais dois. e ninguém sabe culpa de quem mas família não era mais. irmão com dois anos, ensinei a escrever cu na parede. doida pra mãe brigar com ele, afinal foi ele que escreveu. mas ele não sabia escrever nada ainda. depois namorava enquanto a mãe existia a amar os filhos. trabalhei desde cedo, numa máquina de fazer gordos vermelha e amarela. trabalho nela até hoje, sob certo prisma. estou a digitar em espiral desde que existam teclas. ainda bem que posso assoviar os versos de quando em vez. por enquanto ao me redimir me multiplico.

Terça-feira, 18 de Março de 2008


ela apenas ia tecendo sua colcha de retalhos, como fazia sua mãe, e sua avó, assim sucessivas. cada uma bordava um quadradinho com suas iniciais e uma figura que simbolizasse espaço e tempo. assim, sua avó bordou os olhos de seu avô. os olhos amados, os olhos mais doces de seu querido marido. é claro que havia rugas e pintas e óculos. eram olhos perfeitos, pareciam um retrato. sua avó bordava histórias, bordava anedotas, bordava tristeza e fé. sua mãe bordou o quintal de sua casa. ao fundo, um refúgio verde, apesar do terreno irregular. sobre o chão de pedaços de azulejo, uma cadeira antiga, uma toalha de mesa estendida e seu jogo de xícaras verdes - era sua cor favorita. sua mãe bordava em pinceladas amargas uma voz rouca e doce e cheia de verdade. ela apenas ia tecendo sua colcha de retalhos, como fazia sua mãe, e sua avó.

J.G.P.

Domingo, 9 de Março de 2008

meu poema avesso

o que falo em pessoa
abre mão de mim
como da flor o pólen
tem coisa que se rasga fora
o poema
noves fora zero

Quinta-feira, 6 de Março de 2008

Sábado, 1 de Março de 2008

hei de colher fotografias
entre um rosbife entalado
o som da descarga
até que brote
cúmplice
caixote que invade escasso
Estado
que de força bruta me
corrompe um rasgo
um teco vasto
aspiro sólido solo ósseo cético
foda-se academia foda-se daí da zona sul
meu zoom óptico clico
e avisto sem alarde - que não sou bobo

hei de colher fotografias

Domingo, 10 de Fevereiro de 2008

a largos passos
e bem alto
respiro caule
o vento me semeia
pelo chão

crio raízes
de temperamento sórdido

Brasil Barreto - http://www.joaodorio.com/Arquivo/2006/08,09/poeticaderua.htm

“Seduzir passou
a ser meu oficio do dia a dia,
meu combustível pra tocar
a vida adiante.”
Brasil Barreto

Como entender a permanência de um movimento poético, surgido nos idos da década de 70. Com uma linguagem própria, cujo único objetivo inicial era confrontar com o silencio imposto pelos algozes da juventude que insurgia contra a censura e aos meios de comunicação, nossa geração adotou como pratica uma alternativa de publicação eficaz e barata que alcançasse maior numero possível de leitores, muitos destes cidadãos comuns estudantes universitários, trabalhadores ou mesmo secundaristas que escreviam poemas em seus folhetins independentes, cuja tiragem não alcançavam mais que algumas centenas ou dezenas de exemplares.

Sabemos que o uso de pequenas tiragens tem como objetivo a acessibilidade ao grande publico, uma publicação que tão logo foi rotulada de “Marginal” no início e com passar de alguns anos, vimos ser chamada de “Alternativa” e por fim: como “Independente”. Seja qual o nome esta fosse chamada, teria uma marca ou ponto de ligação entre seus criadores e seus leitores, eram os espaços físicos nos quais incidiam sua circulação, estes espaços, eram as ruas, os pelotis das universidades, as rodoviárias, estações de trens, praças e até mesmo nas praias, onde à juventude se reunia para trocarem suas experiências artísticas, teatro, literatura, cinema, etc. Uma corrente de novos poetas, declamadores, ativistas culturais, novas formas de publicações, revistas, folhetos em xerox, novos eventos ganharam as pautas dos teatros e centros culturais, bares de grande concentração, onde além da bebida, havia uma efervescência criativa que trouxe vários novos nomes, que surgia paralelamente ao grande numero de novos lançamentos de títulos que ganhavam as ruas e as praças. – Como uma onda de palavras –.
Uma década depois, nos anos oitenta, uma onda musical fazia uma parceria com poetas letristas que trouxeram sua radiante lira para as faixas de discos (LP) onde eram consumidas pelas massas ávidas por poesia musicadas e como bons exemplos de criação, as letras de Waly Salomão, Tavinho Paes, Flávio Nascimento, Sergio Natureza, Capinam, Chico Chaves, Salgado Maranhão entre outros, chegaram às rádios e lojas de discos com grande aceitação, impulsionadas pelos grandes Festivais da Canção, de onde surgiram vários nomes da Música Popular Brasileira e sem esquecer os eventos que existiam nesta época, organizados por vários grupos de poetas em atividades nas cidades das grandes capitais do país, incluindo as moradias estudantis e antigas Republicas e Universidades que tinham suas publicações e apresentações poéticas, saraus, Festivais de Poesias e Jornais afins. Ainda hoje, essa prática seduz a tantos novos poetas e escritores que passaram a publicar seus pequenos contos na forma de livros de pouca tiragem, suas homes pages, folhetos, livros, objetos, fanzines, cartazes. Foi-se o tempo dos mimeógrafos e xerox de baixa resolução, entra agora a era das impressoras digitais, duplicadoras e a tela do computador.

A década de noventa trouxe uma geração mais ousada em suas formas de apresentações; muitos desses poetas tiveram suas obras teatralizadas, sem querer menosprezar as demais que não ousaram deste artifício. É oportuno lembrar, que uma geração anterior de poetas já tinham alcançado um grande sucesso junto ao publico como João Cabral de Mello Neto, com “Morte e Vida Severina”, o “Auto da Compadecida” de Ariano Suassuna e “Opera do Malandro” de Chico Buarque de Holanda, ainda ouvimos os ecos dessas maravilhosas incursões da poesia sobre as luzes da ribalta, que levou uma grande platéia ao teatro para assistirem uma combinação de enorme feito para a literatura e do teatro brasileiro.

Mas ao fim século XX ao limiar de um novo milênio, uma nova geração desponta, pelo qual já classificamos de “geração 00” (zero-zero), que se espalha de forma magistral, aglutinando elementos utilizados em outras épocas, chega até nós com o fôlego renovado, resgatando para si, como material de construção de sua lira, a poesia urbana, que apesar de ter sofrido os reveses dos tempos, ainda hoje motiva e incentiva as platéias surgidas, nos Centro Culturais das cidades que são iluminadas com os volts da energia produzida pela nova geração de poetas que fazem de forma provocadora e audaz, as suas obras que serão um novo salto na poesia que teima em voar sobre nossas cabeças em plena rua a qualquer hora do dia ou da noite. Por todos estes motivos citados e por outros esquecidos, se hoje é comum encontrar este ou aquele poeta que nos tempos anteriores era negado seu espaço nas mídias oficiais, mas agora é referenciado em alguns suplementos literário de algum Jornal ou escritor conhecido. Isto, com certeza sem a menor dúvida, posso afirmar que devemos isto, aqueles que com seu espírito inquieto e criativo, enfrentaram uma situação de risco real as suas vidas, pos manterem suas criações baseadas na liberdade de fazer o que era certo naquela oportunidade, transpor as barreiras dos impedimentos de uma época de poucas vozes.

Não podemos escrever uma linha da história da literatura brasileira, se não reconhecer o árduo trabalho desta geração que abriu um caminho novo para as demais gerações, porem pagaremos com a cegueira, se desprezamos o papel de muitos nomes, sejam menores ou grandes em suas atrações, e por serem tão determinados em suas ações, sejam individuais ou coletivas, todos serão lembrados pela sua importância, hoje, pouco reconhecida.

E nessa primeira Mostra de Poética de Rua vai aqui alguns nomes: na próxima me proponho a aumentar o numero de nomes, até lá. Brasil Barreto, Dalmo Saraiva, Edu Planchez, Ele Gabeira, Guilherme Celestino, Giddu, João Carlos Luz, Julia Pastore, Vinicius Longos entre outros....

Um abraço poético

Brasil Barreto

Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2008

ainda bem que você não lê
ainda bem que só foi início e fim
os meios sujos me acolhem
nesse recinto verbo
montanhas rasgadas me ventam cheiro de
mato
dose após outra me compreendo
e em seguida
me desfaço

sou apenas dores
sou apenas fruto de dores
sou apenas gestante de dores
sou
apenas meu fim
as dores
os meios

e pouco importa onde estou
pouco importa
o início
ainda bem
nesse recinto eu creio
me comunico
com o que eu acredito que fosse
se você lesse
mas ainda bem que você não lê

Sábado, 29 de Dezembro de 2007

acesas as luzes


"eu não
choro, você
chora?"
The Bluebird - Bukowski


acostumado a estar cego
encontro
por dentro
a voz que me calaria

ante ópio
omito que seja meu
o de dentro
ensaio

desato
meu grande laço
dentro faço
do verbo faca
e linha

Ó Voz!
Voz onde me desfaço!
Guarda-te entrelinha!
Ajeita que só seja dentro
que só seja minha.
Antes que de mim
a lástima
me rechace
e eu brade vida.

enquanto me fora
não lembrança ainda

um escândalo
e tanto agora
decido
eterno
certeza
diagonal à direita
família
quatro por quatro
e todos
de quanto sinto
me resta fechar os olhos
expurgo
que já passou das cinco
talvez que nós
eu criasse
talvez que nós
eu fugisse

expurgo
que já passei dos quinze
que ontem não houve lágrima
navalha
que me valesse
abcesso
marcado a gomos de tinta
folha após folha

assino
que de meu verbo encarne
o mais que puder
eu minto

Sexta-feira, 2 de Novembro de 2007

finados

eu te pensei
de volta teu
contato meu
descompasso

taquicardia

aliança em dia
o tempo a fio
o frio de folga
teu contato
não
meu compasso de volta
as pausas a fio

me aconchego nas pausas
teu contato

piano

síncope
me aconchego
da capo al

fine

Quinta-feira, 11 de Outubro de 2007

tropa de elite

desculpe, mas pra falar da qualidade da obra de arte (produção, grana gasta...) eu não tenho nenhuma qualificação.

mas como moradora do RJ, em contato com favelas, creio que a realidade não seja a retratada pelo dito documentário. não sei quantos milhões foram gastos, sei que o papel do Estado supererói, com seu superexército foram muito bem representados sim, mas a realidade não senhor. não dá pra sobreviver sem no mínimo se revoltar com frases do tipo "o bope entra pra matar", sendo um morador da favela invadida, com filho pequeno no colo. e ninguém falou no caveirão! esse filme foi feito há quantos anos mesmo? será que não existia tanque de guerra ainda? maconheiro playboy é mesmo o único responsável por essa matança toda? não estaríamos invertendo isso? não que eu tenha algo a favor do playboy nem das classes em geral, mas não seria o estado o responsável por essa política de guerra em detrimento do investimento pesado pela educação de qualidade, pública e gratuita? não estaria esse investimento sendo mais útil que armas e tanques e munições e soldados? eu queria um país livre, eu queria um mundo sem fronteira entre países, eu queria um Universo sem fronteira entre os mundos, eu queria Universo sem Uni. Com Multi.

achei o filme uma merda, que me perdoem os bons artistas envolvidos em seu processo. e pela primeira vez no blogue eu boto a cara na reta sem subterfúgio.

Terça-feira, 2 de Outubro de 2007

Poema para Jasmim

as árvores choram folhas
que nos rasgam versos
como para rasgar papel
tanta habilidade
desconstrói sensível
imagem branda
fundo branco
donde brota o fio
que corta
como o verbo

a folha chorada
é menina que chora
a voz da mulher
é corte profundo
o papel rasgado
de árvore verbo
na raiz
lágrima é força
que rasga de papel a tua pétala
e a minha

Terça-feira, 18 de Setembro de 2007

não faço idéia de quem se põe a ler esse blog, então escrevo, mesmo que não tenha nada a registrar.

Quarta-feira, 11 de Julho de 2007

preciso me comprimir
por meu próprio punho em traços.
não me basto pela simetria.
ao avesso,
sou da forma que menos sinto ou vejo
sou cego à forma
sou meio que por dentro.
e não me condiciono a limites
se fluido,
vou a corroer-me em recipiente.
e o verso a me expandir
em náuseas.
preciso me comprimir -
essa dose diária
me mantém a carência
e à lareira nua.

Segunda-feira, 9 de Julho de 2007

um muro

mais de cinco metros, eu acho
mais que o dobro do que você pensou
antes que fosse nula a memória
antes que me forjasse em centímetros,
mais que todos enquadro.

entre meu dinamismo e essa repulsa
ainda sobra o meu verbo
ainda me anulo tenso ao avesso,
impelido, percutido como corda,
me pendo.

parede acima um pulo
do outro lado imune cinco metros
mais que o dobro
(os joelhos
ainda me doem feito gente grande,
mas o salto era de um menino).